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Diversão: entrevista com o Sr. Peão

Notícia
Diversão: entrevista com o Sr. Peão

Como marco de inauguração da sessão "Diversão", o Xadrez Real apresenta uma entrevista com o Sr. Peão.

Publicada em 07/06/2010.
Foto 01

Por Ivan Carlos Regina

Repórter: Sr. Peão, por que vocês entraram em greve?

Peão: Basicamente, por melhores condições de trabalho.

Repórter: Vocês têm consciência do prejuízo que estão causando no mundo todo, recusando-se a entrar no tabuleiro?

Peão: Sim, este é o objetivo. Paralisar todos os torneios, inclusive o de candidatos, para ver se sensibilizamos a Fide. Peão unido jamais será vencido.

Repórter: O Sr. tem autoridade para falar por toda a sua categoria?

Peão: É evidente que sim. O movimento está organizado. Eu, o peão do rei, fui eleito democraticamente líder da categoria, como Presidente do Sindicato dos Peões de Xadrez.

Repórter: Algumas pessoas estão dizendo que esta greve tem conotações políticas, que vocês estão querendo influenciar nas próximas eleições.

Peão: Veja bem, isto é calúnia. Nossa posição é clara, quatro peões do lado direito e quatro do lado esquerdo. Aqui há de tudo, desde o peão da torre do rei que é da extrema direita até o peão da torre da dama que milita na esquerda radical. Todos aqui se dão bem. Quem falou isto tenta desestabilizar nosso movimento. E tem mais, não vamos jogar mais até que abram o diálogo.

Repórter: Quais são suas queixas reais? Vocês se sentem discriminados?

Peão: É evidente que sim. Qual é a única peça que não aparece na notação? Somos nós. Já nos compararam inclusive à casta dos párias. É vergonhoso o que fazem com nossa categoria. O nosso sacrifício, quando acontece, nunca é assim denominado.

Repórter: Quais são os ídolos dos peões?

Peão: Esta é fácil de responder. François Danican Phillidor, que disse: “Os peões são a alma do xadrez e de sua boa ou má colocação depende muitas vezes o resultado de uma partida”. Eis um homem que compreendeu a verdadeira essência do xadrez, que somos nós, os peões. Também gostamos muito do Helder Câmara, que imortalizou nossos sentimentos ao proferir: “O peão não pode arrepender-se”.

Repórter: E quem mais vocês odeiam?

Peão: Os bajuladores, que quando estamos na segunda, na terceira ou na quarta fileira nem ligam para nós. Quando vamos à quinta, somos estratégicos. Quando chegamos à sexta, constituímos ameaça potencial. Na sétima, perigo real. E na oitava, quando ganhamos o jogo, não se lembram mais do pequeno peão que, coroado, transformou-o em vencedor. Você tem que valer pelo que você vale como indivíduo, e não pela posição que ocupa. Desculpe a expressão, são os famosos puxa-sacos.

Repórter: Quais são suas principais reivindicações?

Peão: Primeiro: que tenhamos a mesma estatura das outras peças. É um absurdo que somente os peões sejam menores.

Repórter: Parece razoável.

Peão: Segundo: Queremos pular de duas em duas casas, até o fim do tabuleiro. Por que o cavalo pode ficar saltando o jogo inteiro e nós só na primeira jogada? Queremos direitos iguais. Ou nós também podemos, ou o cavalo só salta uma vez.

Repórter: Arre! Por esta eu não esperava!

Peão: E tem mais. Terceiro: queremos ter o direito de continuar peões, se for o caso, ao atingir a oitava fila. Por que devemos nos modificar obrigatoriamente?

Repórter: Esta foi demais. Isto é uma loucura. Quem poderia querer um peão imóvel na casa de coroação?

Peão: Nós. Veja bem, os direitos se adquirem pela constante mobilização. Você sabia que antigamente os peões só podiam se transformar em peças que já haviam saído do jogo? Depois, nunca poderia haver duas damas no tabuleiro, para que o rei não ficasse bígamo. Fomos conseguindo isto tudo gradualmente. Depois, estamos cansados de sermos trocados pelas outras peças. Queremos escolher nosso destino. Eu, por exemplo, meu sonho é ser Presidente da República. Que tal se a gente pudesse virar rei? Isto é ou não é uma democracia monárquica?

Repórter: Mas é realmente necessária a greve?

Peão: Veja bem, estamos querendo estes objetivos pela paz. Se nós entrássemos em guerra, quem você acha que ganharia? Somos oito contra oito, e tem mais, numa briga a rainha se uniria com o bispo, pois ambos usam saia, o rei com a torre, o cavalo sairia correndo como sempre faz, é um traíra de primeira, esta batalha não duraria mais que alguns lances.

Repórter: Vocês se dizem unidos, mas eu vejo todo mundo chamando vocês de um monte de nomes, como peão passado, peão dobrado, peão envenenado, peão atrasado, peão forte, peão fraco, peão isolado, peão avançado. Que confusão é esta?

Peão: O Sr. é repórter especializado em xadrez?

Repórter: Não, estou apenas cobrindo esta greve. Sou da seção política do jornal.

Peão: Ah, bom. Então está desculpado. São apenas nomes que recebemos de acordo com as condições do nobre jogo.

Repórter: Nobre jogo?

Peão: É, o xadrez é a nossa vida. Vai publicar tudo direitinho?

Repórter: Não sei. Achei esta entrevista muito estranha. E tem mais, sabe como é, amanhã joga o coringão, vai ser difícil sair na página de esporte, e na de política estamos com muitos escândalos. Vou tentar com o editor geral.

Peão: Volta depois que te ensinamos as regras do xadrez. É um jogo maravilhoso.

Repórter: Acho que sim, mas não para mim. Prefiro assistir ao Big Brother!

Publicada em 07/06/2010.

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